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Ancestrais, Raízes do nosso Ser

  • Writer: Khriztina Belle
    Khriztina Belle
  • Sep 3, 2025
  • 2 min read

Updated: Sep 4, 2025

Um ensaio poético sobre memórias, afetos e heranças familiares. Entre raízes e lembranças, celebra ancestrais que moldam nosso ser.


ancestrais, raízes do meu ser

A chaleira canta logo cedo, antes mesmo da luz tocar as colunas da varanda.


É outono por aqui no alto da montanha, no cair das folhas e além.


Mesmo no frio da manhã, o coração aquecido por lembranças que nem sei de onde vêm.

Um cavalo arisco, à espreita no campo aberto... meu pai, com firmeza e olhos ternos

sussurrava baixinho, voz de quem conversa ao vento. O que era selvagem tornava-se manso.


Ali aprendi que com esmero e gentil persistência, tudo pode ganhar nova forma, até o indomável encontra seu domador.

Na sala de aula, minha mãe reinava com giz colorido.

As palavras deslizavam suaves no quadro-negro. Alfabetizava como quem semeia primavera.


Os olhos das crianças tão atentos quanto os dela.


Transformava o aprendizado de letras e números em reino encantado de brincadeiras e risos.


Escrevia com letra bonita, e foi, talvez, ainda em seu ventre que herdei a ternura pelos livros e esse hábito antigo de se expressar no papel onde a alma se faz presente.

Minha avó, uma verdadeira fortaleza.

A cozinha era território sagrado.


Ela ria alto quando nos via com calçados novos e dizia que um bom par de sapatos era a certeza de um bom caminho.


Viúva cedo, com cinco crianças a rodear e mesmo assim seguiu em frente ao ensinar que coragem também se cozinha em fogo baixo e que não adianta apenas sapatear.

Meu avô… ah, o pomar!

Infância com cheiro de limão cravo.


O tilintar do relógio de parede nos lembra que sempre é hora de brincar.


Na mangueira mais alta amarrou um balanço e nos empurrava até as nuvens lá de cima, éramos viajantes alados com o vento no rosto e o riso solto tal qual rabiola o ar.


Aprendi, com alegria, que o sonhar é ir de encontro ao infinito e voar sem medo de pousar.

Sou feita dessas sementes

plantadas na natureza, nos manuscritos e nos pés calçados.


Herdei a letra caprichada, o amor pelas obras, a quietude do diário onde me aninho com a existência.

Sou feita de gestos preservados,

de receitas sem medida, de histórias contadas à luz de lampião, de afetos entrelaçados numa paz que aconchega.

Em cada escolha minha

há um vestígio afetuoso que me guia.


Um rastro do passado e que, mesmo invisível, ainda caminha ao meu lado.

Sou feita desses fios tecidos com delicadeza.

Arabescos da memória inconsciente, desenho com palavras para prosear com eles.

Em minha morada interior, ouço o universo murmurar: “honre seus ancestrais, graças a eles, aqui estás”.

Então, componho com dizeres e bravura herdada daqueles que prepararam o solo onde agora caminho com leveza.


Herdei mais do que feições ou costumes.


Herdei a possibilidade de seguir adiante, de transformar dor em poesia, lapidar euforia em contemplação.

Sou continuidade e escolha.

Meus passos, na batida do coração, caminham comigo calados, firmes.


Ancestrais, raízes do nosso ser.

 
 

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